Por que o silêncio se tornou um gesto raro

Recebi do amigo um desejo de ano-novo que fugia do lugar-comum: “Feliz Ano Novo. Muita paz, saúde e (se possível) silêncio”. A frase, dita quase em tom de brincadeira, continha uma gravidade inesperada. Silêncio? Em tempos de notificações incessantes, opiniões instantâneas e ruídos morais amplificados, desejar silêncio é quase um gesto subversivo.

Talvez porque confundamos silêncio com ausência. Como se silenciar fosse apagar-se, retirar-se do mundo ou desistir da palavra. Mas o silêncio verdadeiro não é vazio, pelo contrário, é densidade. Ele não nega o sentido; prepara-o.

O pensamento profundo exige recolhimento. Não nasce no tumulto nem no excesso de estímulos. Pensar, no sentido mais radical, é movimento da alma que se volta para si mesma. E esse retorno exige pausa, suspensão, intervalo. Não por acaso, os desertos sempre foram metáforas privilegiadas da travessia interior: ali, onde nada distrai, tudo fala.

Há um silêncio que se impõe como sobrevivência. O silêncio de quem atravessa um deserto existencial, de quem aprende a caminhar sem garantias, de quem percebe que nem toda resposta cabe em palavras. Há também o silêncio do rosto do Outro, aquele instante em que a presença alheia nos interpela mais do que qualquer discurso. Um silêncio ético, que não domina, não explica, apenas reconhece.

Vivemos cercados de ruído, mas carentes de escuta. Falamos demais, opinamos demais, reagimos demais. Talvez por isso o silêncio hoje seja uma forma rara de coragem. Silenciar não é calar-se por medo; é recusar o automatismo da fala vazia. É criar espaço para que algo autêntico emerja.

Toda meditação é, em si, um ato de silêncio. Uma tentativa de suspender o fluxo caótico do mundo para escutar o que normalmente ignoramos: o ritmo da respiração, o peso das perguntas essenciais, a fragilidade do eu. No silêncio, o sujeito se desfaz um pouco e é justamente aí que o sentido pode emergir, sem conceitos prontos, sem slogans, sem pressa.

Talvez precisemos reaprender a desejar isso uns aos outros. Não apenas sucesso, saúde ou prosperidade, mas silêncio. Um silêncio habitável. Um silêncio fértil. Um silêncio que não nos isole, mas nos reconcilie conosco e com o outro.

Se possível, silêncio. Se necessário, coragem para praticá-lo.

**Elogio do Silêncio (Manoel Valente Figueiredo Neto - jornalista, jurista e Oficial Imobiliário de Caxias do Sul - RS manoelvalentefn@icloud.com)

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